O MEU BLOG

6. mai, 2018
21. abr, 2018

“Eis o que eu aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes:
afinal tudo são luzes
e a gente se acende é 
nos outros.
A vida é um fogo,
nós somos suas breves 
incandescências.”
Mia Couto - In: Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra.

Imagem: As Annas da minha Vida

Foto de Emoções - Reflexos de Vida.

13. fev, 2018

"A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão 
das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós. 

Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem."

Miguel Torga
A Vida não Cabe numa Teoria
Diário (1941)

4. fev, 2018
Me olho no espelho
E não vejo quem desejo
Estou a me desmanchar.
Não são os mesmos
O contorno dos meus olhos
Da minha boca
Dos meus braços
Dos meus seios
Do meu corpo
Me horrorizo.
Meu grito mudo
Estilhaça o espelho
Em mil pedaços
Quase desesperada
Penso
Ainda não é meia-noite
E já estou perdendo meu encanto?
Quero parar o tempo.
Recuperar o meu rosto
O meu corpo de ontem
Tento me inventar outra
E me vejo a praguejar
Tempo infinito
Tempo Maldito
Porque insiste em
Me fazer passar?
Porque passo pela dor de mudar?
Respiro
Aos poucos me serenizo.
E o trem para em outra estação
Que não é exatamente a do Verão
Mas  que me faz concluir
Que o que senti há pouco
É quase uma bobagem
Como posso impedir o tempo
De caminhar?
Se eternizo o meu corpo
Perco o lugar onde guardar
As histórias que tenho pra contar.
E são elas
Minhas riquezas
Meu ouro
Concluo
Entre chateada e encantada
 Que é da lei
Da vida
Do tempo
Tudo estar em movimento.
E que tudo é circular.
Se eles levam parte de mim agora
Paciência
Num outro tempo
De outra forma
Talvez em outro lugar
O Cosmo dará um jeito
E de novo
E inteira
Eu volto a brotar.
 
Lisa Santana
15. jan, 2018

Aproximo-me da noite 

o silêncio abre os seus panos escuros 
e as coisas escorrem 
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora 
em que me recolheria 
como um poente 
no bater do teu peito 
mas a solidão 
entra pelos meus vidros 
e nas suas enlutadas mãos 
solto o meu delírio

É então que surges 
com teus passos de menina 
os teus sonhos arrumados 
como duas tranças nas tuas costas 
guiando-me por corredores infinitos 
e regressando aos espelhos 
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite 
trazem a sua esponja silenciosa 
e sem luz e sem tinta 
o meu sonho resigna

Longe 
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta 
e a onda da madrugada 
demora-se de encontro 
às rochas do tempo.

MIA COUTO

Tela: A Mulher Só
De Angela Felipe - Arte