16. jul, 2017

Fotografia vs. Palavra

Brandamente escrevem dos espasmos do sol. 
Envelhecem do pulso ao cérebro, ao calor baço 
de um revérbero no eixo dos ventos, usura 
das máscaras que, sucessivamente, as transformam

de consciência em cal ou metal obscuro. 
E já não é por si que a presença existe ou 
subsiste o que separa. Destroem as sementes, 
apodrecem como um sopro e não são remanso

na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se 
à água, para serem raiz do que se cala 
e insinuam-se, para sempre, no pó da noite.

Um castelo de pele tomba. Deixam de ser 
nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente, 
do termo da música o luto do silêncio.

Orlando Neves, in "Decomposição - o Corpo"

Fotografia: Dora La Rua