26. jul, 2017

Mulheres que não se identificam com sua idade cronológica

 

26. jul, 2017

Elas são chamadas de “ageless generation”, “as gerações sem-idade”, mulheres que não se identificam com a “meia~idade”.

 

São chamadas de “ageless generation”, algo como mulheres eternas ou sem idade porque de tênis, jeans e “ t-shirts” (camiseta no Brasil)  não é fácil adivinhar quantos anos têm. “Pelo menos pelas costas”, diz Rebecca  Rhode, fundadora da SuperHuman, a agência de marketing que fez um estudo, com 500 mulheres publicado no The Telegraph. A pesquisa confirma que as que estão na  sua quarta,  quinta ou sexta década não se identificam com o rótulo social “mulheres de meia idade”, que supostamente as define.

 

Rebecca Rhode, fundadora da  SuperHuman, a agência de marketing, que fez um estudo com 500 mulheres

Na plenitude de sua vida, as mulheres que nasceram nos anos cinquenta , sessenta e setenta rebelam-se contra qualquer definição cuja origem seja a idade.

Não será uma notícia surpreendente e não será um rótulo tão certeiro como o vaticinado por Gina Pella, editora do The What, num artigo no Fast Company. Sem distinção de gênero, Pella falava em 2016 do iminente interesse que as marcas iriam desenvolver pela conhecida como geração “babyboomers”, descrita como a única com pessoas relevantes de distintas idades, que sabem o que acontece no mundo, têm contacto com a tecnologia e um círculo pessoal representado por diversas idades. A imagem utilizada para ilustrar os “perennials” era categórica: “Lady Gaga e Tony Bennet podem ter mais em comum que dois millennials  (*) esco lhidos ao acaso”.

 

AS SEMPITERNAS

De facto, tendo em vista os resultados da pesquisa do jornal britânico, uma mulher de 40 anos e outra de 50 têm, realmente, em comum algo muito relevante :  sentem-se jovens ou pelo menos não se sentem mais velhas e tão pouco se encaixam no clichê da “meia idade”.

“Realmente parece-me algo anacrónico, como senhoras tomando café com bolachas no fim de tarde. Estou num momento fantástico de minha vida, cheia de energia; os meus filhos ainda são muito pequenos e tenho em mãos um monte de projectos pessoais e profissionais. Não sou nenhuma jovenzinha, sei perfeitamente qual é minha idade, mas também não tenho a sensação de que o tempo começa a ficar mais curto que é o que sempre se associou à meia idade. De modo que não, não me identifico com esse rótulo, nem com muitos outros”. É a impressão de Charo Marcos, jornalista de 41 anos que edita a Kloshletter, a primeira newsletter independente de informação geral editada,  em  Espanha e dirigida, principalmente, às mulheres. “Se nós somos a geração sem idade? Também não estou segura. Minha mãe, que já fez 65 anos,  e diz  que  não se sente uma mulher de 65 anos, como se lembra da sua mãe com essa idade. Não têm a mesma vida, as mesmas inquietudes, sequer o mesmo aspecto. As mulheres de sua idade não são como eram as mulheres de sua idade há anos atrás. Acredito que, no fundo, o bem-estar não só nos fez viver mais,  como vivemos melhor e essa melhoria também se reflecte no nosso aspecto e na nossa atitude no momento de enfrentarmos a idade que temos”, reflecte.

 “Estou com cerca de metade da minha vida, por isso, eu me identifico, sim, com a meia idade. O que acho que mudou é o conceito: antes, uma mulher de meia idade prototípica era uma senhora de vida estabilizada, geralmente com filhos já independentes, às vezes avó de crianças pequenas. Eu sempre me lembro dessas “mulheres de meia idade” dos 70, com camiseiro (vestido  chemise) e cabeleireiro semanal. Não sou isso, evidentemente. Sou dos jeans e da   “t-shirt (camiseta), cabelos secos ao ar livre, e não ocorre a ninguém chamar-me de senhora nas lojas ou no transporte. Tenho um filho pequeno e um panorama de trabalho complicado, entre outras coisas, pela minha “meia idade”. Definitivamente, o que mudou é o conceito. Não sou uma senhora de meia idade, mas sou, sim, uma mulher de meia idade. Até diria que uma moça de meia idade.” Quem diz isso é Charo Fernández, de 49 anos, que não só dá novos matizes e enriquece o catálogo de rótulos em torno da idade feminina como também, com sua identificação e seu foco no trabalho, pulveriza o relato das incluídas na “ageless generations”. E não é a única.

María Ángeles Gómez, 53 anos, divorciada e com dois filhos universitários, tão pouco está disposta a ser rotulada, mas está bem consciente de que é. “Isso de que somos mulheres sem idade não é verdade. Talvez até nosso físico e nossa atitude seja juvenil ou directamente jovem. Eu me sinto jovem e sei que minha aparência é de alguém de menos idade. Mas, com mais frequência do que gostaria, a sociedade não me deixa sentir-me assim”, protesta. “Não busco parecer mais jovem do que sou, mas me sentir bem. Por isso saio para correr, tenho inquietações de todo tipo e, em geral, me cuido e estou feliz em fazer isso. Mas isso não combina com o difícil que seria, sim, por exemplo, se quisesse mudar de trabalho e com o fato de que minha suposta sabedoria e minha suposta plenitude só servem para a questão física e para que me vendam coisas. Em muitos aspectos de minha vida, outros me definem, sim, pela minha idade.”

Na mesma direcção se expressa a especialista em produtividade e gestão do tempo Aje Arruti, de 50 anos, solteira e sem filhos: “Não me sinto identificada com a meia idade, como não me sinto identificada com a imagem da mulher de 20, 30, 40 anos atrás. Acho que minha identificação com grupos sociais é mais transversal e tem a ver com outros factores, como se tenho ou não filhos, companheiro, trabalho, se viajo ou não, se me importo ou não sem seguir a moda... E também renego o conceito de “ageless generation”,  porque continua dando importância demais à idade como factor discriminatório. É como se tivessem escolhido o rótulo dizendo: “como se incomodam que lhes lembremos a idade, então, tomem em dobro, mulheres sem idade, vejam como estão bonitas!”. Ou mais ainda, me incomoda que só se fale de quão fantásticas estamos aos 50 como uma maneira de continuar enaltecendo a juventude. O verdadeiramente relevante são os estilos de vida e os factores sócio económicos  porque, então, uma mulher sudanesa com seis filhos, já idosa aos 40 não incorporamos neste debate, não? E uma mulher de etnia cigana que aos 40 é avó e aos 50, bisavó, tão pouco? Definitivamente a minha idade não me define, nem diz nada de mim a não ser o momento em que nasci. Mas isso é o que eu penso não o que pensam as empresas que procuram “milennials.”

O discurso de Fernández, Gómez e Arruti é um choque frontal com uma realidade económica e profissional menos encantadora. Mas cabe esperar que algo mude depois de se recolher os pedaços quebrados. Se empresas como a Amazon e a Netflix  triunfaram segmentando por comportamentos e estilos de vida, em vez de critérios como idade, não é porque acreditem que seja justo e sensato fazer isso, mas porque é oportuno, tal como mostram as cifras do texto de The Telegraph: 96% das mulheres de mais de 40 anos não se sentem de “meia idade”; 80% acreditam que os pressupostos da sociedade sobre as mulheres de meia idade não representamas suas vidas; 67%  consideram-se  em sua plenitude de vida; 84% dizem que não se definem por sua idade e 91% não acreditam que os anunciantes as entendam. Se são os únicos que estão atentos, o que esperam para tentar?

Fonte: EL PAIS  - Maria Garrida

( * )  “Millennials”.  A Geração Y, também chamada geração do milénio ou geração da internet, o  termo "millenial" foi criado pelo historiador e economista norte-americano Neil Howe nos anos 1990. Faz menção à geração nascida a partir do início dos anos 80.

( * ) Xennials – Micro geração dos nascidos entre 1977 e 1983, ou seja,  a geração nascida entre a Geração X e os Millenials” , quando a saga Star Wars foi lançada. São a última geração que se lembra como era a vida antes da internet. Não são descontentes como a Geração X nem optimistas como os Millennials. Já não são uma ponte entre ambas. São os Xennials.

(**) Pleistoceno - Época geológica na história da Terra que, segundo muitos geólogos, começou há cerca de 1.750.000 anos e terminou aproximadamente há dez mil anos. Os antropólogos crêem que o ser humano primitivo começou gradualmente a evoluir para a forma actual durante o Plistoceno.