11. ago, 2017

MULHERES REAIS

Elas não têm medo dos cabelos brancos

Assumir os cabelos brancos expõe o corpo tal como é, encarando o que nos está a acontecer a todos: envelhecer. Contudo há  mulheres que tomaram essa decisão e não querem voltar atrás.

Nos últimos anos afirmou-se várias vezes que o cinzento é o novo preto. Os mais de 50 tons de cinzento estão na moda não só na roupa, mas também no cabelo. Rihanna, Cara Delevingne ou Lady Gaga adoptaram, a certa altura, os cabelos brancos. Pela internet, a hashtag #grannyhair revela milhares de mulheres jovens que descoloraram ou pintaram o cabelos de branco, sem que isso tenha feito delas avozinhas.

É um paradoxo fácil de perceber que os únicos cabelos brancos que não estão na moda sejam os naturais, aqueles que aparecem com a idade (ou não), os que não se escolhem como e onde devem aparecer: o ideal é a juventude e, em alguns casos, o cabelo é o primeiro a lembrar-nos que o tempo continua a correr, o futuro e a velhice são inevitáveis. Mantêm o cabelo assim porque é bonito, porque não têm tempo ou dinheiro para a manutenção de um cabelo bem pintado, porque querem levantar o queixo e dizer que estão presentes como são, sem pedirem desculpas. Para todas foi uma escolha que lhes libertou a cabeça de quaisquer pressões e que lhes  falar do que é estético, político e da velhice.

“E então?”, perguntam estas quatro mulheres  entre os 45 e os 64 anos. Todas elas assumem os seus cabelos brancos de olhos fixos no inegável cronómetro e desafiadores para a sociedade. Não são invisíveis, como diz o mito das mulheres de cabelos grisalhos; pelo contrário, toda a gente repara nelas.

Eis os seus depoimentos:

Susana Gomes, 51 anos, socióloga

Quando tomou a decisão de manter os cabelos brancos?

Eu passei uma fase em que observava as pessoas na rua — as pessoas não, as mulheres concretamente, a tinta do cabelo delas — e estabelecia umas comparações: aquela é uma tinta boa, aquela é uma tinta má, aquela fica horrível. Vi uma actriz de Hollywood, a Jamie Lee Curtis, que cortou o cabelo e está a assumir os brancos e de facto, quando eu olhei para aquela mulher achei que ela estava muito melhor assim do que antes. É como se fosse um statement, porque há um pretenso ideal de juventude ligado a uma coisa não natural. Isto é como eu estou agora, é o que quero ser e não vou disfarçar o que sou agora, não faz sentido. Se calhar também corresponde a uma fase da minha vida e é mais fácil tomar esta decisão agora do que seria há uns tempos. Mas, de facto, não é só deixar de pintar os cabelos porque sim, é o assumir de uma posição.

Como é que tomou esta decisão?

Eu cortei o cabelo dois dias antes do final do ano, por isso não foi uma decisão de ano novo, foi de ano velho.

Senti-me bem, senti sobretudo que estava outra vez a controlar o meu cabelo — até porque tenho um cabelo muito forte, ondulado, o meu cabelo sempre fez o que quis."

Eu penso que a questão dos cabelos brancos vai começar a ser assumida e não pelas mulheres mais velhas, provavelmente por algumas mulheres mais novas que ainda sentem que têm a opção.

 

Luísa Falcão, 45 anos, professora de matemática

Quando teve os primeiros cabelos brancos?

Com 14 anos. Era só um ou outro, nada de especial. Começou por aqui [duas madeixas à frente] todo por igual, mesclado. Normalmente aparece uma madeixa aqui, outra ali, e fica feio. A  mim não, foi todo por igual, tive sorte. Se não fosse assim, provavelmente,  pintaria o cabelo.

O facto de aparecerem aos 14 anos incomodou-a?

Não porque se falava no assunto com graça. Depois passei por várias fases: lá para os 20 pintei, fiz madeixas, fiz tudo.

Por causa dos cabelos brancos?

Não, coisas da idade. E quando engravidei da minha primeira filha [aos 26 anos] nunca mais pintei.

Com que idade ficou com o cabelo todo branco?

Deixei de pintar com 26 — eram madeixas e fui eliminando progressivamente. Em momento algum foi problemático. Fiquei com mais cabelos brancos do que pretos aos 30.

O que diziam as pessoas da sua idade?

Era a única, fui sempre diferente, sempre identificada por ter o cabelo branco. É uma maneira de ser diferente. Eu sei que o cabelo branco pesa, dá um ar mais velho, mas não era por isso que eu o iria pintar. Eu tenho noção de que a coisa por enquanto ainda fica bem, a cara ainda não corresponde muito ao cabelo, não há assim muitas rugas, mas mesmo sabendo que vou ficar mais velha, que vou ter rugas, não tenho intenção de pintar.

Agora já sei que quando alguém vem ter comigo e me diz 'posso fazer-lhe uma pergunta?', respondo logo:  'é meu, é natural, não pinto'.

 

Ana Perez-Quiroga, 56 anos, artista plástica

Manter os cabelos brancos foi sempre uma escolha política?

Sempre foi. Há cerca de dois anos li uma entrevista da Mary Beard [historiadora e apresentadora de programas na BBC], que tem o cabelo branco e comprido, e dizia que sempre tinha sido uma questão política não pintar os cabelos mas que era profundamente criticada, que lhe mandavam e-mails a insultá-la. As pessoas sentiam-se ofendidas e agredidas por ela manter os cabelos brancos, não só homens mas também mulheres — “como é que você se atreve a ter os cabelos brancos?”. Eu venho de gerações de mulheres como a Susan Sontag (*) que sempre tornaram isso um marco, não só de personalidade mas de confronto que afirma “eu estou aqui e eu sou assim”. De repente eu estou a reivindicar um espaço social.

Porque é que mantens os cabelos brancos?

A sociedade de alguma forma empurra-nos para pintarmos os cabelos. Estamos a falar das mulheres, que são altamente penalizadas pela idade que têm e quanto mais anos passam sobre elas… está associada às mulheres uma eterna juventude. É mais fácil ser um homem com mais idade do que uma mulher com mais idade — em termos de sociabilidade, no trabalho também há penalizações. E ter cabelos brancos também incorpora um discurso político — bom, qualquer acção que façamos é política. Se eu me permito ter os cabelos brancos é evidente que é um statement: eu reivindico para mim um papel que não joga o mesmo jogo social que nos é de alguma forma imposto.

Com que idade começaste a ter os primeiros cabelos brancos?

Aos 18 tinha duas grandes madeixas brancas e mantive-as sempre. Só pintei o cabelo uma vez, já tinha uns 38 anos — foi para um trabalho fotográfico. Mas durante muitos anos, talvez mais de 20, usei o cabelo todo com gel para trás e apanhado com um rabo de cavalo pequenino e isso tapava um bocado esses brancos — durante muitos anos não se notava.

Quando deixei de o usar apanhado e passei a usá-lo solto, apercebi-me de que estava realmente muito mais grisalho e de que todos os anos fica mais grisalho.

Na altura em que te apercebeste do cabelo branco ponderaste pintá-lo?

Não, nunca ponderei.

Sabemos perfeitamente que os cabelos brancos pesam mais, tornam a pessoa com mais idade, mas isso é uma coisa com que também vou jogando. 98% das minhas amigas que tenham a minha idade têm os cabelos pintados. As minhas amigas que pintam o cabelo não parecem ter 56 anos, eu já pareço que tenho essa idade.

(*) Susan Sontag 1933 - 2004) escritora norte-americana, crítica de arte e activista .Licenciou-se na Universidade de Harvard e destacou-se pelar sua defesa e luta pelos direitos humanos.

 

Kimberley Pearl, 64 anos, bailarina e actriz na Companhia Maior

Sempre gostou dos seus cabelos brancos?

Primeiro fiquei um bocado chateada quando começaram a aparecer — um nãoimporta, mas depois começam a chegar muitos, muitos. Tinha colegas que diziam “com a tua idade não devias ter o cabelo assim, és tão jovem de espírito, devias ter o cabelo pintado”. Então pus henna. Já tinha pintado por causa de várias peças em que dançava, por exemplo — tive de ser cigana e pintei o cabelo com seis cores escuras diferentes para ficar escuro mas com reflexos. Durou seis ou oito meses e ficou de todas as cores até sair — gostei imenso, mudei o guarda-fato todo por causa das cores do cabelo. Fiz montes de coisas com o meu cabelo, cortei, deixei crescer, uma vez estava a pôr henna(*)   em casa e deixei demasiado tempo porque estava a falar com uma pessoa. Fiquei com uma coroa de laranja, não conseguia tirar. Decidi pedir [ajuda] a uma cabeleireira, fiquei lá quase o dia inteiro. Ela coloriu o cabelo todo e depois fez madeixas e no fim daquele tempo todo — estava marcado para as nove da manhã, fiquei até às cinco da tarde, e odiava estar lá dentro — vi uma senhora chegar com um cabelo natural, preto e branco, sal e pimenta, tão lindo aquele cabelo, e disse: “nunca mais”.

Decidiu assim, de um momento para o outro?

Assim. Eu vi que isto é natural, isto é que é bonito. Por mais que uma pessoa faça madeixas e por mais que tente fazer coisas para realçar, a cor é sempre a mesma, sempre o mesmo tom. E a cor natural tem montes de cores, ninguém tem só uma. Para fazer como deve ser tinha de ir ao cabeleireiro e eu não gosto de estar sentada no cabeleireiro. A manutenção é chata: uma pessoa olha para o espelho e está lindíssimo, mas depois vêm as raízes e é feio, tem de estar sempre a contar as semanas, é um frete. E aquele dia foi mesmo desastroso para mim, estar ali tantas horas. Quando vi aquela senhora vi que nunca mais ia pintar o meu cabelo.

Que idade tinha?

Tinha uns 57. Comecei a ter os primeiros cabelos brancos aos 50 e poucos, aos 54 já estava a experimentar coisas, como a henna e assim — tentei sempre coisas naturais, mas quando fui dessa vez ao cabeleireiro foi com os produtos deles. Depois demorou assim uns quatro ou cinco anos para crescer e depois cortei. Eu adoro o cabelo branco, sempre tive uma pancada com cabelo branco, até tive uma Barbie com cabelo branco, loiro platinado.

A manutenção [de pintar o cabelo] é chata: uma pessoa olha para o espelho e está lindíssimo, mas depois vêm as raízes e é feio, tem de estar sempre a contar as semanas, é um frete.

Vai mantê-lo assim, branco?

Queria que fosse todo branquinho como o do meu pai. E ainda não está, chateia-me que não esteja, uma pessoa nunca está satisfeita com aquilo que tem. A pessoa com a idade começa a perceber o que gostava de ter, mas também percebe que não tem ainda e tem paciência para esperar. Em jovem não tem, pinta logo, ou então faz madeixas. Mas [no manter ou não manter entra] sempre a questão da manutenção. Não tenho dinheiro para isso, é muito difícil ficar sempre com o cabelo bonito sem uma manutenção pelo menos mensal. Nos Estados Unidos nunca tive esse hábito de ir ao cabeleireiro, isso é mais europeu. As pessoas gostam de estar bem, de se sentirem bem consigo próprias. E às vezes quando uma pessoa já não trabalha, as crianças já cresceram e não existe uma ocupação, olha para si e a única coisa que resta é ir ao cabeleireiro tratar do cabelo, das unhas, arranjar-se e ir jantar fora. E vejo que há mulheres que têm o cabelo natural porque não têm dinheiro para o ter pintado. Se houvesse alguém que lhes dissesse “ficas bem assim”, que lhe fizesse um elogio, talvez já se preocupassem mais com a saúde e a cabeça e não tanto com o cabelo branco.

(*)Henna é um produto natural, similar à argila, que permite tingir o cabelo.

 

Fonte : In Observador, com Catarina Moura

Fotografia de André Marques e Michael Matias.