17. ago, 2017

A geração que derrubou estereótipos sobre o amor depois dos 60

Apesar do cepticismo de muitos, a idade , realmente, não é um empecilho para se encontrar um amor. Neste artigo, da jornalista Viviane Bevilacqua, publicado na revista Donna, vai poder ler um depoimento de pessoas que, depois dos 60 anos, tiveram uma segunda – ou terceira – chance e retomaram a sua vida amorosa com parceiros, normalmente encontrados – ou reencontrados – através da internet, como o caso de Leonardo e Lúcia.

Leonardo Petry e Lucia Pesca tiveram um namorico de adolescentes e se reencontraram 45 anos depois

Leonardo Petry e Lúcia Pesca tiveram um namorico de adolescentes e se reencontraram 45 anos depois.

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Naquela noite, de quarta-feira, ela recebeu notificações de um nome familiar nas suas publicações, no Facebook. Aquele tipo de curtida (gosto) de quem não está muito preocupado em esconder que andou bisbilhotando no perfil alheio. Intrigada, abriu a janelinha de conversa (bate-papo). Perguntou-lhe, afinal de contas, de onde os dois se conheciam. Refrescada a memória – já haviam até se beijado numa festa, certa vez –, começaram a conversa. Assim passaram o restante daquela semana: trocando mensagens e emojis sorridentes até que resolveram se encontrar, pessoalmente. Ele morava na Serra, mas sem problemas. No fim de semana, estaria na Capital e gostaria que pudessem encontrar-se.

Quando ela passou para buscá-lo, ele entrou no carro e, sem delongas, deu um beijo na boca da motorista. Recuperado o fôlego, ela “protestou”: – Mas ouve lá, que ousadia é essa? – mas qual é o problema, eu quis partir de onde a gente havia parado.

A “estorinha" tem pontos em comum com qualquer outro casal: os namoriscos nas redes sociais, a troca de mensagens mal-intencionadas até os encontros pessoais. Tudo muito natural em 2017. O curioso aqui é que, entre o primeiro e o segundo beijo de Lúcia Pesca e Leonardo Petry, passaram-se 45 anos. Um ano e meio depois do episódio, a “estorinha” tem grande chance de ser narrada para os convidados, em 9 de  Setembro, quando a psicóloga e terapeuta sexual Lúcia e o produtor rural Leonardo celebraramo aniversário de 60 anos dela e o segundo casamento de ambos. Um “sessentamento”, como ela baptizou o evento.

 “Pode parecer que esse reencontro veio tarde, mas veio na fase da vida em que a gente mais pode aproveitar a companhia um do outro”, diz Leo | Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

“Pode parecer que esse reencontro veio tarde, mas veio na fase da vida em que a gente mais pode aproveitar a companhia um do outro”, diz Leo | Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

Embora boa parte dos casais dessa faixa etária não chegue ao ponto de trocar alianças, o relacionamento de Lúcia e Leonardo é emblemático. Trata-se de uma geração que chega à sexta década com a vida amorosa muito mais leve, activa e, por que não, fogosa  que os  filhos e os netos costumavam imaginar sobre os avós. Sim, eles namoram, trocam de parceiros, conhecem gente via internet, reencontram ex-namorados. São comportamentos que, pela peculiaridade da idade, até se intensificam depois dos 60. Mas não falta quem ainda fique chocado.

– Quando eu conto sobre o casamento, alguns reagem com aquele silêncio carregado de julgamento. Outros acham maravilhoso, mas irreverente. No meu consultório, percebo que essa máxima de que namorar é algo para jovens é contraditória em relação à vontade das pessoas. Muitos querem alguém nessa idade, mas têm vergonha de sentir essa necessidade e de ir atrás. Sempre digo: “Quem sabe  se tu tentares?” A primeira coisa que é preciso mudar é na cabeça das pessoas é esse preconceito – declara Lúcia.

Há, claro, factores físicos envolvidos nesse comportamento, mas graças aos avanços da medicina e à  consciencialização de que  a qualidade de vida requer cuidados com o corpo e a saúde, hoje envelhece-se melhor. Amar melhor, portanto, vem na esteira de uma mudança mais ampla. Porém, de acordo com a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de A Bela Velhice (Editora Record, 2013) entre outros aspectos sobre essa  fase da vida, há uma mudança geracional operando nesses novos relacionamentos amorosos.

– É preciso olhar para quem está envelhecendo. Essa geração que hoje está com 60 e poucos anos é aquela mesma que, nas décadas de 1960 e 1970, fez a revolução sexual. Essas mulheres são aquelas mesmas que foram as primeiras a não casar virgens, a tomar pílula, a ter menos filhos, a trabalhar, a divorciar-se… É natural que elas também envelheçam de uma maneira diferente. Essa mulher rejeita a ideia de que, depois de casar e ter filhos, já cumpriu seu papel e deve retirar-se da vida amorosa. Costumo dizer que, se o século 20 foi o da revolução das mulheres, e o século 21 é o da revolução dos velhos – declara Mirian.

A gerontóloga Anelise Giacomet celebra as mulheres descobrindo o orgasmo na velhice, mas se preocupa com o descaso dos homens
 60+ com o sexo seguro

A gerontóloga Anelise Giacomet celebra as mulheres descobrindo o orgasmo na velhice, mas preocupa-se com o decaso (não caso) dos homens 60+ com o sexo seguro.

Um novo nome para uma nova velhice

A diferença entre a imagem que se tem deles e a realidade é tanta que gerou um problema linguístico. Não há mais uma palavra que represente bem quem passou dos 60 anos. Velhos? Idosos? Terceira idade? Melhor idade? Bem, o que consola é que nem eles sabem direito como desejam ser chamados.

– Muitos deles não se sentem velhos, mas acham que não chamar de velho é recorrer a eufemismos. O único consenso é ter pavor a esse “melhor idade” – observa a psicóloga Luciana de Morais.

Luciana é uma das fundadoras da Vitamina Pesquisa, empresa que, actualmente, colecta depoimentos e dados com o objectivo de desvendar como esse público poderia ser representado com mais fidelidade. Por ora, o termo escolhido para definir o público é o “60+”, o mesmo da capa de Donna. Quando o assunto é amor e relacionamento, a imagem que surge de alguns depoimentos é bem distante da de um casal de velhinhos claudicantes e sorridentes passeando na praça.

Anelise Giacomet, gerontologista, de 64 anos, relata casos para todos os gostos. Sabe de mulheres, por exemplo, que só descobriram o que é orgasmo na velhice, depois de viuvarem dos maridos com quem se casaram ainda adolescentes. Tem amigas e amigos cujos perfis já jubilaram em sites de relacionamento (nos aplicativos ainda são raridade). A própria Anelise já conheceu namorados assim e recomenda a experiência. Mas nem todos, destaca, procuram um par.

– Tem quem não queira mais, simplesmente. Isso é mais recorrente em mulheres, há quem prefira usar o seu tempo para viajar, para se divertir. Ou que pelo menos não sacrifique a sua liberdade para ter um relacionamento – conta.

Fonte : Viviane Bevilacqua, in revista Donna - 50 e mais (Texto adaptado)