14. out, 2017

A Arte de Envelhecer

A actriz fracesa Catherine Deneuve aos 71 anos

A actriz fracesa Catherine Deneuve aos 71 anos

 

Um dia destes fiquei espantada com um artigo que li num  site de “estilos de vida”

Era uma galeria de fotografias de mulheres  famosas com e sem maquiagem. Beldades que sempre povoaram o nosso imaginário, apareciam desnudadas de “make up”  e eram mostradas, sem retoques, com todos os seus defeitos, manchas na pele e rugas, sobretudo rugas. Acho que assuntos deste tipo  nos espantam,  porque mostram que a lei da gravidade é cruel com todos. Trocado por miúdos: parece que, hoje em dia, as celebridades estão proibidas de envelhecer, e, para piorar, nós, simples mortais, também!

Vivemos cercados por uma patrulha velada, a da chamada “ditadura da beleza”. Ela é pior que qualquer caudilho, pois consegue estar, eficazmente, em todos os lugares, nos apelos comerciais, nas televisões e nas revistas. É um padrão praticamente inalcançável, que está a fabricar uma massa de infelizes. Fico sempre com cara de asno ao ler coisas do tipo:  “Sharon Stone tem celulite”. Ela é uma belíssima cinquentona e tem todo o direito de ter! É como diria uma amiga minha: “só não envelhece quem morre cedo” . É por isso que pessoas como Marylin Monroe, James Dean, Jim Morrison ou  Kurt Cobain, de entre tantos, serão sempre eternizados nas nossas mentes com os seus rostos lisos e sua juventude eterna.

Mas… quem nunca se ouviu a dizer:  “como aquela(e) fulana(o) envelheceu?”. Isto é muito engraçado, porque estamos todos a  envelhecer juntos. Neste preciso  momento, em que está a ler este blog,  já envelhecemos mais um pouco! Pronto não estou a falar de uma ou outra pessoa específica. Há pessoas que por este ou aquele motivo, chegam lá mais cedo. Mas é no mínimo espantoso ouvir pessoas com 24, 25, 28 anos, afirmar, categoricamente: “estou velha(o)”. É engraçado porque, coma minha idade, ainda me sinto jovem.  Será que esta geração está com um ciclo biológico mais acelerado do que o meu?

Acho que o nosso mundo de hoje está a  levar-nos  para uma encruzilhada. De facto, os avanços da tecnologia estão correndo de uma maneira tal que tudo fica obsoleto num piscar de olhos. O problema é quando achamos que essa obsolescência tem a ver com os seres humanos, começam aí as distorções. Há ginásios lotados com gente a treinar de segunda a segunda, desgastando ainda mais os seus corpos; pessoas que querem músculos a qualquer preço, enchendo-se  de anabolizantes, para mostrar a treta que foi a chamada “geração saúde” das décadas passadas; e pessoas que não aceitam os efeitos do tempo e que, muitas vezes, no afã de manterem a cara dos 20 anos, a qualquer custo, se submetem a constantes cirurgias plásticas, tornando-se verdadeiras caricaturas de si mesmas.

O pensador latino Cícero (106 – 43 A. C.) foi o autor de uma obra que li faz muito tempo: “A Arte de Envelhecer”. Aliás, acho que todos, hoje em dia, deveriam ler esse livro! Realmente, envelhecer é uma arte e, numa era em que as pessoas estão mais preocupadas em se encher de “botox” do que de conteúdo, ficar velho com dignidade é um feito! O maior exemplo disso, para mim, é a actriz francesa Catherine Deneuve. Sim, ela já fez algumas plásticas aqui e acolá, tudo bem leve. Ícone de uma beleza madura, lúcida, ela nunca fez nada que tentasse mascarar as suas sete décadas de vida. Porque, ao contrário do que o artigo que li insinuava, celebridades e anónimos têm direito a envelhecer. Eu, pelo menos, quero ter a liberdade de me fazer valer desse direito.

 

Mandy Martins Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

Fonte : Gazeta, com Anaximandro Amorim (texto adaptado)