20. out, 2017

Como me sinto por estar a envelhecer ?

 

Velha sorrindo

 

Um dia destes uma jovenzinha perguntou-me como me sentia por estar a envelhecer.

Fiquei siderada, porque não me vejo a envelhecer. Ao notar minha reacção, a garota ficou embaraçada, mas fiz questão de lhe explicar que era uma pergunta interessante, que ia pensar no assunto e, depois, voltaria a falar com ela.

Fui para casa e fui ver-me ao espelho.

Oh, não o meu corpo! Fiquei incrédula  ao examinar-me e ao ver as minhas rugas, a flacidez da minha pele, os pneus rodeando o meu abdómen, através das grossas lentes dos meus óculos, o traseiro rotundo e os seios já caídos. E, uma vez mais, examinei essa pessoa envelhecida que mora  no meu espelho (e que se parecia mais com a minha mãe), e sofri muito com isso.

Após a decepção inicial pensei melhor, revi-me de novo e concluí: afinal a velhice até é um presente. Eu sou agora, provavelmente pela primeira vez na vida, a pessoa que sempre quis ser e porquê ?

Porque não trocaria os meus amigos fantásticos, a minha vida maravilhosa,  o carinho de minha família por menos cabelo branco, por uma barriga mais lisa ou por um traseiro mais durinho.

Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais condescendente comigo mesma, menos crítica com as minhas atitudes. Tornei-me amiga de mim mesma. Não fico mais s censurar-me se porque quero comer um docinho a mais, ou se tenho preguiça de arrumar a minha cama, ou se comprei um bugiganga que não preciso, mas que gostei tanto. Conquistei o direito de saciar  as minhas vontades, de ser brincalhona, de ser extravagante.

Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento. Quem vai censurar-me se resolvo ficar a ler ou a navegar na net até às 4 da manhã e, depois, só acordar ao meio-dia?

Posso dançar ao som daqueles sucessos maravilhosos das décadas de 50, 60, 70 e se, de repente, me apetecer chorar ao lembrar alguma paixão daquela época, poder chorar mesmo!

Posso andar pela praia com um fato de banho excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas e, se quiser, andar aos pulos, apesar dos olhares penalizados dos outros. Não me ralo porque também eles se conseguirem  fazer o que eu faço, é porque vão chegar à minha idade.

Sei que ando a esquecer-me de muita coisa, o que é bom para me poder perdoar. Mas, pensando bem, há muitos factos na vida que merecem mesmo ser esquecidos. E das coisas importantes, eu recordo-me bem e frequentemente. É verdade que, ao longo dos anos, o meu coração sofreu muito, mas como não sofrer se se perde um grande amor, ou quando uma criança sofre, ou quando um animal de estimação é atropelado por um carro? Mas corações partidos são o que nos dá a força, a compreensão e nos ensina a ter compaixão. Um coração que nunca sofreu, é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser forte, apesar de imperfeito.

Sou abençoada por ter vivido o suficiente para ver o meu cabelo embranquecer e ainda poder arranjá-lo a meu bel-prazer, e por ter os risos da juventude e da maturidade gravados para sempre em sulcos profundos no meu rosto. Muitos nunca rirão e muitos morrerão antes que os seus cabelos possam ficar prateados.

À medida que envelhecemos, fica mais fácil ser positivo, ligar menos ao que os outros pensam. Não me questiono mais. Conquistei o direito de estar errada e não ter de dar explicações. Assim, respondendo à pergunta daquela jovem graciosa, posso afirmar: “Eu gosto de ser velha. Pude Libertar-me!

(Texto adaptado)

 

Imagem : Web

 

Mandy MartinsPereira escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

 

 

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